Deserto da Notícia
Como já sabemos o “deserto de notícias” refere-se a áreas onde há pouca ou nenhuma cobertura jornalística local, deixando as comunidades sem acesso a informações confiáveis e relevantes para o seu cotidiano.
No Brasil, esse fenômeno tem se agravado nos últimos anos por vários fatores, especialmente com a crise financeira dos veículos de comunicação tradicionais e a migração de leitores para plataformas digitais. A última pesquisa realizada pelo Atlas da Notícia, iniciativa que mapeia a presença de veículos de comunicação no país, revelou dados alarmantes sobre a extensão dos desertos de notícias no território brasileiro e seus impactos na sociedade.
O Atlas da Notícia é um projeto desenvolvido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) em parceria com a organização Volt Data Lab. A pesquisa, que já está em sua quarta edição, mapeia a presença de veículos de comunicação em todos os municípios brasileiros, identificando regiões onde há escassez ou ausência de jornalismo local.
Segundo os dados mais recentes, em torno de 30 milhões de brasileiros vivem em municípios que podem ser considerados desertos de notícias, ou seja, locais sem nenhum veículo de comunicação local. Além disso, outros 34 milhões habitam em áreas quase desérticas, onde há apenas um ou dois veículos cobrindo uma grande região. Esses números mostram que aproximadamente um terço da população brasileira não tem acesso a informações locais de qualidade.
Sem veículos de imprensa para acompanhar e informar sobre o poder público, prefeitos, vereadores e gestores municipais ficam menos sujeitos a omissão de fatos, o que aumenta o risco de corrupção e má gestão. Além disso, a falta de informações locais dificulta a participação cidadã, já que os moradores não têm acesso a dados essenciais para tomar decisões conscientes.
Outro impacto preocupante é o aumento da desinformação. Em regiões sem veículos locais, as redes sociais e aplicativos de mensagens se tornam as principais fontes de informação, o que facilita a disseminação de notícias falsas. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, muitas comunidades ficaram sem acesso a informações sobre a proliferação do vírus, vacinas e prevenção no município.
Diante desse cenário, os jornalistas têm um papel importante na reversão dos desertos de notícias. A Revista Summit Press propõe organizar alguns encontros para abrir o debate sobre o tema e apresentar algumas sugestões. Destacamos alguns tópicos para o debate:
Fortalecimento do jornalismo local
Criar um grupo de jornalistas voluntários apoiados por instituições para a criação ou revitalização de veículos locais, especialmente em regiões carentes de cobertura. Com o avanço da tecnologia é possível criar sites, blogs e podcasts com custos relativamente baixos, alcançando comunidades que não são atendidas pelos grandes veículos. Temos um projeto e estamos buscando apoios.
Parcerias e colaborações
Iniciativas colaborativas entre jornalistas, veículos independentes e organizações da sociedade civil podem ajudar a preencher lacunas na cobertura. Projetos como o Repórter 51, que reúne jornalistas de diferentes regiões para investigar temas de interesse público, mostram que a união de esforços pode gerar impactos positivos.
Formadores voluntários
Jornalistas podem atuar como educadores, promovendo informações nas escolas e comunidades. Ensinar as pessoas a identificar fontes confiáveis e a checar informações para combater a desinformação e fake news
Advocacy por Políticas Públicas
Profissionais da comunicação podem se mobilizar para debater o tema com os governos e legisladores a adotar políticas públicas que incentivem o jornalismo local. Isso inclui a criação de fundos de apoio, isenções fiscais para veículos regionais e a regulamentação das plataformas digitais.
Inovação e sustentabilidade
Assinaturas pagas e parcerias com empresas locais são algumas das alternativas que podem garantir a sustentabilidade de projetos jornalísticos.
Os desertos de notícias no Brasil representam um desafio complexo, mas também uma oportunidade para repensar o papel do jornalismo na sociedade. A pesquisa do Atlas da Notícia serve como um alerta para a urgência de se enfrentar esse problema, que ameaça não apenas a qualidade da informação, mas a falta dela.
A união de um grupo de jornalistas no combate à disseminação é uma forma de assumir o protagonismo na reversão desse cenário. Seja através da criação de veículos locais, da promoção das informações ou da defesa de políticas públicas, os profissionais da comunicação podem ajudar com informação ou abrindo espaços para debater o assunto. Em um mundo cada vez mais conectado é essencial que nenhum brasileiro fique no escuro da informação. O jornalismo local não é apenas um serviço, mas um direito ao acesso à informação.
Se você tem desejo de participar do grupo de debate sobre esse assunto entre em contato com a redação: redacao@summitpress.com.br